Em vez de depender exclusivamente da Microsoft e do Windows, a Holanda começou a testar um ambiente baseado no NixOS, uma distribuição Linux conhecida pela forma diferente de administrar configurações e softwares.
O governo Holandês está apostando no NixOS Linux para mudar a forma como órgãos públicos lidam com seus computadores.
A iniciativa faz parte do chamado DAWO, sigla para Ambiente de Trabalho Digital Autônomo do Governo. A proposta não é simplesmente instalar Linux nos computadores e substituir o Windows. A ideia é criar um ambiente completo para o setor público, incluindo aplicativos de escritório, colaboração, armazenamento em nuvem, gerenciamento de dispositivos, backups e outras ferramentas necessárias para o trabalho diário.
Os primeiros testes já começaram em pequena escala e envolvem oito municípios holandeses. Ainda não existe uma data definida para uma migração geral do Windows ou do Microsoft 365. A expectativa dos responsáveis pelo projeto é chegar a uma primeira versão estável do DAWO em 2027, mas esse prazo não representa um calendário oficial de substituição.
Por que o NixOS foi escolhido?
Aqui está uma das partes mais interessantes do projeto.
O NixOS não funciona exatamente como uma distribuição Linux tradicional. Ele utiliza o gerenciador de pacotes Nix e permite definir boa parte da configuração do sistema de maneira declarativa. Na prática, isso facilita reproduzir a mesma configuração em diferentes computadores.
Imagine que um órgão público tenha centenas ou milhares de máquinas. Em vez de configurar cada PC manualmente, a equipe de TI pode trabalhar com uma configuração definida e reproduzi-la nos equipamentos. Isso ajuda a manter os computadores padronizados e também facilita testes, manutenção e auditoria.
Outro recurso interessante é a possibilidade de voltar para uma configuração anterior quando uma mudança causa problemas. É como ter um botão de "desfazer" para determinadas alterações do sistema. Essa característica pode ser especialmente útil em ambientes públicos, onde uma atualização mal sucedida pode afetar o trabalho de muitas pessoas.
O NixOS também permite testar mudanças com mais controle antes de aplicá-las de maneira ampla. Para uma infraestrutura com muitos computadores, esse tipo de previsibilidade pode reduzir dores de cabeça para as equipes de TI.
O objetivo não é apenas economizar
Embora custos de licenciamento possam entrar nessa discussão, o projeto holandês tem uma preocupação maior: soberania digital.
A ideia é reduzir a dependência de fornecedores estrangeiros para serviços considerados importantes. Isso ganhou força na Europa depois de acontecimentos que aumentaram a preocupação de governos com a possibilidade de decisões políticas externas afetarem serviços tecnológicos utilizados por instituições europeias.
O Tribunal Penal Internacional, que fica em Haia, por exemplo, também decidiu substituir parte das ferramentas da Microsoft por alternativas de código aberto. O episódio ajudou a colocar em evidência uma questão que vai muito além de qual sistema aparece na tela do computador: Afinal, quem controla a tecnologia utilizada por instituições públicas?
Para governos, depender de uma única empresa para sistema operacional, suíte de escritório, armazenamento e serviços corporativos significa concentrar uma parte significativa da infraestrutura digital em um único fornecedor.
Com soluções de código aberto, existe maior possibilidade de analisar o software, adaptar componentes e escolher diferentes fornecedores para serviços de suporte e implementação.
O Linux está ganhando espaço nos governos europeus
A Holanda não está fazendo esse movimento sozinha. A Dinamarca já anunciou planos envolvendo Linux e LibreOffice para substituir soluções da Microsoft em parte de sua administração. A França também avançou com um plano para migrar computadores públicos do Windows para Linux e reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras.
A Suíça também iniciou um programa piloto com milhares de funcionários para avaliar alternativas abertas ao Microsoft 365. Esses projetos não significam que a Europa inteira esteja abandonando o Windows, mas mostram que governos estão estudando com mais atenção a possibilidade de manter maior controle sobre sua infraestrutura tecnológica.
E o que isso significa para quem usa Windows?
Para o usuário doméstico, a notícia não significa que seja preciso abandonar o Windows amanhã. Mas isso pode mostrar que o Linux está deixando de ser visto apenas como uma alternativa para entusiastas, programadores ou pessoas que gostam de experimentar sistemas diferentes.
Governos estão avaliando o Linux para situações em que estabilidade, controle, padronização e independência tecnológica são importantes.
Isso também pode beneficiar quem tem computadores mais antigos. O projeto holandês já testa o novo ambiente em notebooks antigos que estavam fora de uso, mostrando que uma alternativa baseada em Linux pode, e deve, ser considerada para reaproveitar equipamentos que ainda possuem capacidade para trabalhar.
Para empresas e usuários domésticos, antes de considerar um computador antigo como descartável, pode fazer sentido verificar se ele ainda atende às necessidades com uma distribuição Linux adequada.
Mas como sempre, os obstáculos
Trocar o sistema operacional de uma infraestrutura pública inteira está longe de ser simples. Aplicativos desenvolvidos especificamente para Windows podem não funcionar corretamente no Linux. Existem também questões envolvendo compatibilidade de documentos, sistemas internos, periféricos, treinamento dos funcionários e suporte técnico.
O Microsoft 365 é outro ponto complicado. Não basta substituir o Word, Excel e Outlook por programas equivalentes. Muitos órgãos dependem de serviços integrados, armazenamento em nuvem, autenticação, colaboração e ferramentas administrativas.
Por isso, os testes realizados na Holanda serão importantes. Antes de uma adoção maior, será necessário descobrir se o novo ambiente consegue atender às necessidades reais dos funcionários sem criar novos problemas.
Conclusão
A aposta da Holanda no NixOS mostra que a discussão sobre Linux mudou de nível. Não se trata apenas de escolher entre Windows, Ubuntu ou outra distribuição para o computador pessoal.
O governo holandês está testando uma estrutura completa para ter mais controle sobre seus computadores, aplicações e dados, enquanto reduz a dependência de fornecedores externos.
Ainda é cedo para dizer se o DAWO será adotado em larga escala. Os testes precisam provar que a proposta funciona no dia a dia e que os problemas de compatibilidade, treinamento e suporte podem ser resolvidos.
Mesmo assim, acompanhar esse projeto faz sentido para qualquer pessoa interessada em tecnologia. Se governos conseguirem administrar grandes estruturas públicas com Linux e ferramentas abertas, isso pode fortalecer ainda mais o mercado de soluções independentes e aumentar as opções disponíveis para empresas e usuários comuns.
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