Desde a muito tempo acredita-se que sacolas plásticas, garrafas, canudos e embalagens são os principais culpados da poluição dos oceanos. E isso faz doto o sentido: grandes quantidades de plástico produzidas em terra chegam aos mares por rios e regiões costeiras.
Mas quando os cientistas pesquisadores olharam mais de perto para a Grande Mancha de Lixo do Pacífico, encontraram uma história diferente.
Um estudo publicado na revista Scientific Reports em 2022 concluiu que entre 75% e 86% da massa de plástico flutuante com mais de 5 centímetros nessa região pode estar relacionada à pesca industrial em alto-mar e à aquicultura. O resultado muda bastante a maneira de entender de onde vem o lixo que se acumula no meio do Pacífico.
Isso não quer dizer que o plástico descartado nas cidades deixou de ameaçar os oceanos. O problema é que estamos falando de duas situações diferentes: uma coisa é a quantidade total de plástico que chega aos mares; outra é o tipo de plástico que consegue permanecer flutuando e se concentrar justamente nessa área remota do Pacífico.
A famosa Mancha de Lixo não é uma ilha de plástico
Primeiro, é preciso corrigir uma imagem bastante comum. A Grande Mancha de Lixo do Pacífico não é uma enorme ilha sólida feita de garrafas e sacolas, como algumas ilustrações fazem parecer. Ela é uma gigantesca área de concentração de resíduos, formada por objetos de diferentes tamanhos e por milhões de fragmentos de plástico espalhados pela superfície do oceano.
A região está dentro do Giro Subtropical do Pacífico Norte, um sistema de correntes que funciona quase como uma enorme esteira circular. Os resíduos que entram nesse sistema podem ser transportados por grandes distâncias e permanecer ali durante anos.
O tamanho, o material e principalmente o local onde o plástico entra no oceano influenciam muito o destino de cada objeto. Um pedaço de plástico lançado perto da costa pode acabar em uma praia ou afundar. Já uma rede perdida em alto-mar começa praticamente dentro do sistema de correntes que pode levá-la até a região de concentração.
Os pesquisadores fizeram uma investigação forense
Para descobrir a origem desse material, pesquisadores analisaram resíduos coletados durante uma expedição realizada em 2019. Foram examinados 6.093 objetos com mais de 5 centímetros, totalizando cerca de 573 kg. Só os resíduos plásticos rígidos representavam mais de 99% dos objetos analisados e cerca de 90% da massa total coletada.
Os cientistas procuraram pistas nos próprios objetos. Idiomas, marcas, inscrições, símbolos, datas de fabricação e características dos produtos ajudaram a identificar possíveis origens.
Das peças cuja origem e nacionalidade pôde ser determinada, Japão e China apareceram com grande destaque. Coreia do Sul, Estados Unidos, Taiwan e Canadá também estavam entre os principais países identificados. Juntos, esses países responderam por mais de 92% dos objetos com origem identificável.
Existe uma característica em comum entre eles: todos possuem atividades pesqueiras relevantes no Pacífico Norte.
Redes e boias pesam muito mais do que parecem
Aqui aparece um detalhe que ajuda a entender por que simplesmente contar objetos pode enganar. Entre os resíduos encontrados havia muitos fragmentos pequenos. Porém, alguns equipamentos de pesca são grandes, pesados e podem permanecer inteiros por muito tempo.
As boias e os flutuadores, por exemplo, representavam apenas cerca de 3% dos objetos plásticos encontrados, mas correspondiam a aproximadamente 21% da massa desses resíduos. Equipamentos de pesca e aquicultura também representavam uma parcela relevante dos objetos rígidos analisados.
É como comparar uma caixa cheia de tampinhas com uma única rede de pesca enorme. A caixa pode ter muito mais peças, mas a rede pode pesar muito mais.
Um estudo anterior já havia encontrado outra pista importante: as redes de pesca sozinhas respondiam por aproximadamente 46% da massa de plástico na Grande Mancha de Lixo do Pacífico.
O novo estudo foi além e tentou descobrir a origem também de outros objetos rígidos. Para isso, os pesquisadores combinaram a análise dos resíduos com informações sobre a atividade pesqueira e modelos capazes de simular o transporte do plástico pelas correntes oceânicas.
O resultado foi a estimativa de que 75% a 86% da massa do plástico flutuante acima de 5 centímetros na região pode ser classificada como relacionada a equipamentos de pesca e aquicultura abandonados, perdidos ou descartados.
Por que o lixo da pesca chega lá tão facilmente?
Isso não significa que pescadores simplesmente joguem mais plástico no oceano do que toda a população mundial. O fator decisivo é onde o resíduo entra na água.
Os modelos utilizados pelos pesquisadores indicaram que um objeto plástico proveniente de atividades pesqueiras pode ter uma probabilidade mais de dez vezes maior de alcançar o giro subtropical do Pacífico do que um objeto que chega ao oceano por um rio, dependendo das condições consideradas no modelo.
Imagine duas bolinhas de plástico.
Uma é jogada em um rio e precisa percorrer quilômetros até chegar ao mar. No caminho, pode ficar presa, encalhar ou ser transportada para uma praia.
A outra é uma boia perdida durante uma operação de pesca em alto-mar. Ela já começa dentro do oceano e pode entrar diretamente nas correntes que transportam resíduos para a área de concentração.
É por isso que olhar apenas para a quantidade de plástico descartada não conta toda a história.
O problema das chamadas redes fantasmas
Existe também outra consequência bem mais preocupante do que simplesmente encontrar lixo boiando.
Redes, linhas, cabos, armadilhas e outros equipamentos de pesca abandonados são conhecidos como "apetrechos fantasmas". Eles continuam funcionando mesmo depois de deixarem de ser utilizados.
Uma garrafa pode flutuar no oceano, mas uma rede perdida foi criada justamente para capturar animais. Quando fica abandonada, pode continuar prendendo peixes, tartarugas, aves e mamíferos marinhos.
O animal capturado pode morrer por afogamento, fome ou ferimentos. E a própria rede continua à deriva, podendo capturar outros animais. É um ciclo particularmente cruel porque o equipamento continua causando mortes mesmo depois de ter sido perdido.
Estimativas citadas apontam que cerca de 2% dos equipamentos de pesca utilizados globalmente podem ficar à deriva no oceano todos os anos. Em escala mundial, isso representaria milhares de quilômetros quadrados de redes, centenas de milhares de quilômetros de linhas e milhões de armadilhas e cestos.
Uma praia no Havaí mostra o tamanho do problema
A dimensão desse lixo fica ainda mais clara quando ele chega às áreas costeiras.
Durante uma expedição ao monumento marinho Papahanaumokuakea, no arquipélago havaiano, uma equipe retirou aproximadamente 43 toneladas de detritos de apenas 25 quilômetros de costa em 24 dias.
Quase 36 toneladas eram redes fantasmas e outros equipamentos de pesca. Em um dos primeiros momentos da operação, os pesquisadores encontraram uma foca-monge-do-Havaí com uma rede enrolada no pescoço.
Desde 1996, mais de 900 toneladas de detritos marinhos já foram removidas daquela região protegida.
As mesmas correntes que ajudam a concentrar resíduos no Pacífico também podem transportá-los até ilhas e áreas costeiras remotas.
Isso significa que sacolas e canudos não importam?
Essa é uma conclusão errada que o próprio estudo ajuda a evitar. A pesquisa não diz que o plástico vindo das cidades é irrelevante. Pelo contrário: os autores deixam claro que resíduos de origem terrestre continuam sendo uma das principais fontes de plástico que chegam aos oceanos em escala global.
Rios e regiões costeiras transportam enormes quantidades de resíduos para o mar. A Grande Mancha de Lixo do Pacífico representa apenas uma parcela do plástico presente no ambiente marinho.
O que o estudo mostra é algo mais específico:
Quando analisamos o plástico flutuante que se acumula naquela região do Pacífico Norte, a pesca industrial aparece como uma fonte dominante.
Essa diferença é importante porque para uma solução eficiente é necessário saber de onde o problema está vindo. Se determinado tipo de resíduo chega principalmente pelos rios, ações de coleta e prevenção precisam atuar nas cidades, nos sistemas de gestão de lixo e nas bacias hidrográficas.
Se uma parcela enorme chega por equipamentos de pesca perdidos ou abandonados em alto-mar, é preciso trabalhar também com a própria indústria pesqueira, melhorar o rastreamento dos equipamentos, criar mecanismos para recuperar materiais perdidos e reduzir o descarte no oceano.
O que podemos aprender com essa descoberta?
A lição é: não basta olhar para o plástico que vemos no nosso dia a dia para entender toda a poluição dos oceanos.
Uma sacola jogada na rua pode acabar no mar, mas uma rede de pesca que descartada no lugar errado pode ter uma chance muito maior de chegar justamente a uma das grandes zonas de concentração de resíduos.
A pesquisa também mostra como os próprios objetos podem contar sua história. Uma inscrição, uma marca, um idioma ou uma data de fabricação podem funcionar como pistas para descobrir de onde aquele plástico veio.
Esse tipo de investigação ajuda a direcionar as medidas de prevenção. Em vez de tratar todo o lixo plástico como se tivesse a mesma origem, pesquisadores conseguem identificar quais atividades estão contribuindo mais para determinado problema e onde as ações podem ter maior efeito.
Conclusão
A Grande Mancha de Lixo do Pacífico continua sendo um dos maiores símbolos da poluição causada pelo plástico, mas a composição desse acúmulo revela uma história menos óbvia.
Na região estudada, redes, boias, linhas, armadilhas e outros equipamentos ligados à pesca e à aquicultura podem representar entre 75% e 86% da massa do plástico flutuante com mais de 5 centímetros mas, o problema é grande demais para ser reduzido a um único culpado. O que muda é a estratégia: para diminuir o lixo que se concentra no Pacífico, também será necessário atacar a origem dos equipamentos de pesca que acabam abandonados no oceano.
A mensagem para quem acompanha o problema ambiental é direta: reduzir o consumo de plástico continua sendo importante, mas também precisamos cobrar rastreamento, fiscalização e práticas melhores da indústria pesqueira.
Se este artigo ajudou você a entender por que existe tanto plástico no meio do Pacífico, compartilhe com outras pessoas. E deixe um comentário contando se você já conhecia o peso que a pesca industrial tem na Grande Mancha de Lixo do Pacífico.
Fonte: nature.com


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